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laura.fm1701
05 de jul. de 2022
In Paleontologia
Provavelmente você já ouviu falar uma ou outra curiosidade interessante sobre polvos e lulas. Esses animais pertencem a classe dos cefalópodes, e o grupo recebe uma atenção especial devido às habilidades cognitivas e adaptações complexas de seus representantes, bem como seu modo de vida diferenciado. Os cefalópodes são moluscos e podem apresentar concha externa (Nautilus), interna reduzida (lulas) ou ausente (polvos). Esses animais que possuem concha são muito bem preservados no registro fóssil, e partir delas, podemos reconstruir as histórias evolutivas de muitos grupos. Mesmo com as diferenças entre as conchas dos cefalópodes, sabemos que o ancestral desse grupo apresentava uma concha similar a que conhecemos do Nautilus. Ela é formada por câmaras septadas e possui um filamento de tecido vivo que se estende através delas: o sinfúnculo. Essa organização foi muito importante na história desses animais, pois essas câmaras cheias de ar permitiram que eles conseguissem flutuar na coluna d’água e ganhassem cada vez mais espaço no ambiente marinho. E por que isso nos interessa? Ainda há muita discussão a respeito da evolução desses animais: até então, a espécie Plectronoceras cambria era considerada a representante mais antiga desse grupo, datada do final do Cambriano. Esses animais fazem parte de um grupo basal dos cefalópodes e são conhecidos por terem um sifúnculo ventral e a concha septada em formato de cone. Um estudo recente apresentou um novo material fóssil que traz novidades nas conchas apontando para uma história ainda mais antiga dos cefalópodes. Esses fósseis foram encontrados na Península Avalon no sudeste de Newfoundland, no Canadá, de uma formação do início do Cambriano (Terreneuviano). Essas conchas também possuem formato cônico, são retas e alongadas, indicando a presença de um sifúnculo no animal vivente. É claro que esses novos fósseis encontrados possuem diferenças em relação aos citados anteriormente, seja na organização dos septos nas conchas ou na possível posição do sifúnculo. Entretanto, é interessante notar que as conchas septadas não são uma novidade evolutiva dos cefalópodes: elas são encontradas no registro fóssil desde o início do Cambriano, e apesar de já terem sido erroneamente associadas a cefalópodes anteriormente, elas fazem parte de outro grupo de moluscos: os Monoplacophora. Para além disso, partir do estudo da concha desses animais, é possível apontar para uma possível evolução dos sífunculos, embora esse caminho ainda não seja muito claro. Tudo isso é muito interessante porque esse material encontrados representa, provavelmente, os cefalópodes mais antigos encontrados. Essas evidências sustentam a hipótese de que esses animais teriam surgido no início do Cambriano, cerca de 30 milhões de anos antes do que acreditava-se até então. Agora, é curioso pensar que os cefalópodes, esses animais tão complexos, teriam surgido tão cedo e passado despercebidos por tanto tempo no registro fóssil. Isso tudo apenas indica que ainda há um longo caminho a ser percorrido no estudo desses grupos, e as conchas continuam reservando muitas histórias a serem descobertas. Fonte: HILDENBRAND, Anne et al. A potential cephalopod from the early Cambrian of eastern Newfoundland, Canada. Communications biology, v. 4, n. 1, p. 1-11, 2021.
As conchas contam muito mais do que o barulho do mar. O que elas têm a nos dizer sobre a origem dos cefalópodes? content media
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