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Luiz Ottoni
14 de mai. de 2020
In História da Ciência
Conheça um pouco mais sobre como foi essa pandemia no Brasil Primeira página do jornal "A gazeta de notícias", de 1918, da então capital do país, o Rio de Janeiro. - Reprodução Entre febre-amarela, cólera, varíola, tuberculose e muitas outras, sem dúvidas a que mais nos lembra o tempo presente, foi a epidemia de gripe espanhola que atingiu o mundo no ano de 1918. É sempre difícil definir o local de surgimento de um vírus, ainda mais em uma época onde sequer existia a virologia (campo da Biologia responsável por estudar os vírus) como conhecemos hoje, mas os primeiros casos registrados se deram no Kansas (EUA), e aí está a sua provável origem. Estranho, né? Afinal, o nome é gripe espanhola. Bem, esse adjetivo ficou pois a Espanha foi um dos poucos países que não tentaram mascarar a existência da epidemia. Por ser neutra na Primeira Guerra, a imprensa espanhola não teve restrições para denunciar o mal que gerava tantas mortes na Europa, daí a impressão de que o país era o mais afetado pela moléstia. (GUNDERMAN, 2018) A doença logo se tornou um terror nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918 ), os soldados passaram a enfrentar algo mais aterrorizador do que inimigos de carne e osso, uma força invisível que fazia morrer misteriosamente os mais bravos homens do exército. Aqueles que se mantinham firmes diante de tanques e metralhadoras, sucubiam à força do vírus. Esse vírus que causava o terror na Europa e nos EUA, chegou ao Brasil. Difícil é dizer por onde, mas suponha-se que ele veio de navio, mais precisamente no navio inglês Demerara que partiu de Lisboa e fez três desembarques em Recife, Salvador e Rio de Janeiro (ROCHA, 2006). Jornal do Recife noticia a chegada do Demerara à capital pernambucana em 9 de setembro de 1918: sem saber, navio carrega o vírus da gripe espanhola (imagem: Biblioteca Nacional) Foi questão de tempo para que a doença atingisse grande parte das cidades brasileiras e cenas escabrosas de gente morta nas ruas e hospitais colapsando, tornarem-se presentes. A tragédia evidente aos olhos de quem quisesse ver, se contrapunha ao discurso dos governantes que tentavam minimizar suas consequências. Como descreveu uma testemunha da crise, o senhor Nelson Antonio Freire: “O pior de tudo é que estava morrendo gente aos borbotões, e o governo dizia nas ruas e nas folhas, que a gripe era benigna. Certo dia, as folhas noticiaram mais de quinhentos óbitos, e mesmo assim a gripe era benigna, benigna, benigna. (...) As mortes eram tantas que não se dava conta do sepultamento dos corpos.” (GOULART, 2005) A dificuldade de conclusões a respeito da doença, a falta de informações confiáveis, o conflito de análises que brotavam na imprensa, fizeram com que se tornassem comuns teorias da conspiração (como a de que os alemães haviam criado a doença como uma arma biológica na guerra) [A Careta, n° 537] e remédios que prometiam curar os doentes, como a “Grippina” , lançada pela Companhia Paulista de Homeopatia, tornaram-se práticas comuns. (ROCHA, 2006) Imagem acusando os alemães de usarem os submarinos para transportarem o vírus da espanhola como arma biológica: Anúncio de um remédio contra a gripe em um jornal: Foto: Clube de Engenharia. (ROCHA, 2006) A epidemia de gripe espanhola matou entre 20 e 40 milhões de pessoas em todo o mundo, isso, em ocasião de comparação, é mais do que a Primeira Guerra registrou de óbitos em decorrência dos conflitos. Dessas pessoas, 35 mil foram no Brasil, sendo 12.700 pessoas apenas na então capital federal, o Rio de Janeiro. (LAMARÃO & UBINATI, s.d) A posição passiva e o discurso que buscava minimizar a doença por parte do governo, gerou uma forte crítica da opinião pública. À época não existia o Ministério da Saúde, que só surgiu em 1953, então a crítica foi em cima do então presidente Wenceslau Braz (1914 -1918) e do diretor de saúde pública Carlos Seidl. Eles tornaram-se bodes expiatórios de todo o mal gerado pela doença e foram antagonizados ao personagem que tornou-se um herói para a nação, Oswaldo Cruz. Depois da política sanitarista do primeiro governo de Rodrigues Alves (1902 - 1906), que, em um curioso paradoxo, exalou eficiência e transbordou autoritarismo, os médicos ligados ao castelo de Manguinhos [https://www.potencialbiotico.com/forum/historia-da-ciencia/para-alem-das-muralhas-do-castelo-1] tornaram-se heróis. O povo acusava Carlos Seidl de acabar com o projeto feito por Oswaldo Cruz, sua popularidade era cada vez menor e o governo precisou reagir (GOULART, 2005). Essa demanda por um fortalecimento da saúde pública fez com que surgisse, em 1918, a Liga Pró-Saneamento do Brasil, mas não foi o suficiente… o Governo precisava de um nome que fosse capaz de gerar confiança na população e demonstrar que ele estava alinhado às ideias de Oswaldo Cruz. Um nome veio em mente, um discípulo de Oswaldo Cruz que já tinha fama por suas ações no combate às moléstias brasileiras, Carlos Chagas. O convite veio pelo secretário de gabinete da Presidência da República, Elmano Cardim, no dia 17 de Outubro de 1918. No dia seguinte, Carlos Seidl pediu demissão e foi substituído pelo Theophilo Torres. Uma crise política somava-se à crise sanitária. O presidente insistia em culpar o diretor de saúde pública pela ineficiência do Governo no combate à pandemia (GOULART, 2005). Depois de infectar uma enorme parcela da sociedade, chegando ao alarmante dado de 66% da população infectada na cidade do Rio de Janeiro, a doença foi minguando. O acentuado trabalho de Carlos Chagas em seu combate, trouxe de volta uma força política da comunidade científica que vigorou para o pós-pandemia. Inclusive, o Conselheiro Rodrigues Alves, presidente responsável pela campanha sanitarista de Oswaldo Cruz, foi eleito presidente naquele mesmo ano, mas sucumbiu a uma doença (aí existe uma grande polêmica se foi a gripe espanhola ou não) e morreu antes da posse (GOULART, 2005). A questão da saúde pública e dos hábitos passaram a se tornar fator importante nas disputas políticas. Os cientistas tornaram-se importantes figuras no debate público, mas a crença de que a ciência havia conseguido evoluir ao ponto de compreender toda a natureza entrou em xeque, já que ninguém entendia ao certo o que gerava aquela pandemia. Além do mais, o constante uso da força para impedir a circulação de pessoas ou obrigar indivíduos a tornarem-se coveiros, gerou uma crítica ao autoritarismo das políticas sanitárias e a subsequente crise econômica levou a frequentes saques de padaria e um alarmante aumento na fome. A verdade é que não existe uma simples consequência desta complexa conjuntura. O quanto de liberdade estamos disposto a renegar por segurança, sempre foi e sempre será gerador de um acalorado debate. Aconteceram tentativas de censura à imprensa por parte do Governo, mas foram frustradas. Em contrapartida, ações de interrompimento de algumas atividades desaceleraram a propagação da doença. Pois é, este é o dilema que fica ao leitor: liberdade e segurança são antagônicas? Referências: GOULART, Adriana. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. Scielo, 2005. Disponível em: < https://www.scielo.br/