top of page
  • Instagram
  • Whatsapp
  • Link Canal do Potencial Biótico no Telegram
  • TikTok
  • Youtube
  • LinkedIn
  • Facebook

Confiança equilibrada na ciência: é possível ensiná-la na escola?


Em um mundo marcado pelo volume excessivo de informações, desenvolver uma confiança equilibrada na ciência se tornou um objetivo urgente. Nesse texto, proponho pensarmos a escola como um espaço de equilíbrio entre a confiança cega na ciência e um ceticismo superficial.  Um espaço em que os estudantes se tornem capazes de julgar em quem e no que confiar, especialmente em debates científicos que afetam suas vidas.


Quer ir para alguma parte específica deste artigo? Basta clicar em qualquer um dos tópicos:




A ciência na escola e seus porquês


Sou professor há pouco mais de dez anos. Em uma de minhas primeiras aulas, ouvi uma pergunta que nunca esqueci: Professor, por que eu preciso aprender isso?” Não me lembro o que respondi, só lembro que engasguei para responder. Eu nunca a esqueci, porque ela jamais se fez esquecer. Essa pergunta se repetiu várias vezes: em escolas e com alunos diferentes. 


A última vez que a ouvi foi em uma turma do 8° ano, quando eu ensinava sobre sistema nervoso. Um pouco indignado com tanta decoreba, um aluno entregou uma atividade e me perguntou no canto da sala: “Professor, eu não vou ser médico! Por que eu preciso saber isso?


Agora, como professor universitário, quase não a ouço mais. Sou eu mesmo quem pergunto aos meus alunos: você sabe por que vai ensinar ciências? Não raro, me deparei com a mesma reação: engasgo, antes da resposta. 


Durante a pandemia de Covid-19, alimentei a ilusão de que essa pergunta não mais seria ouvida nas escolas. Imaginava, ou gostava de imaginar, que depois de todo o papel que a ciência teve na pandemia, dificilmente um estudante iria questionar por que aprender ciências na escola. Um engano, é claro. Mas, não se trata de um engano de pouca importância. Na verdade, é uma reflexão necessária. 


Nós precisamos nos questionar continuamente sobre alguns ‘porquês’, inclusive porque ensinamos ciências na escola. Essa pergunta não deve parar de ser feita. A confiança em qualquer instituição humana deveria demandar revisão e atualização contínuas. Se a sociedade confia na ciência como conhecimento obrigatório da escolarização, devemos manter atualizados os seus porquês. 


Diferentes respostas já foram dadas a essa pergunta. Algumas são mais pragmáticas, pois destacam o uso instrumental da ciência na vida cotidiana: compreender uma bula de remédio ou  adotar hábitos de higiene, por exemplo. 


Outras respostas são de caráter mais propedêutico, isto é, voltadas para a preparação do estudante para um suposto “vir a ser”: ter uma boa nota no ENEM e se preparar para certa carreira profissional, por exemplo. 


Há ainda respostas mais filosóficas, que defendem o ensino de ciências pela beleza do próprio conhecimento científico: compreender onde a Terra se localiza no universo ou conhecer as teorias para nossas origens, por exemplo. 


Ultimamente, tenho pensado nessa pergunta a partir de outra perspectiva: a necessidade de construirmos uma confiança equilibrada na ciência. Essa me parece uma discussão urgente que já tem povoado as mentes de alguns professores de ciências com os quais converso. 


Há cerca de dois anos, uma de minhas alunas me recomendou e emprestou o livro Why Trust Science?” (Porque Confiar na Ciência?), de Naomi Oreskes. O livro me envolveu em um dilema que eu já vinha observando entre professores.



De um lado, queremos apresentar a ciência como uma fonte confiável de conhecimento e defendê-la. Ao mesmo tempo, queremos que os estudantes compreendam que a ciência é produzida por seres humanos falíveis, e por isso, é influenciada por contextos sociais, políticos e culturais. 


Conseguimos fazê-lo? É difícil dizer. Para dizê-lo, precisamos olhar com atenção para o que significa ensinar ciências hoje, identificar erros e acertos, e pensar no que podemos aprender com eles. 


Confiança pública na ciência e o ensino de ciências


Há uma aparente sensação de desconfiança na ciência, que vem ganhando tração nos últimos anos. Falo em sensação e não em uma desconfiança concreta, porque precisamos pensar em outros fenômenos que perpassam diferentes esferas da sociedade. 


Cenários de insegurança social, medo de um futuro sem garantias, sentimentos de autopreservação e desilusão com discursos oficiais alimentam um sentimento generalizado de desconfiança, não apenas com relação à ciência. 


Soma-se a isso, o imenso desafio da gestão individual da informação, que se torna cada vez mais difusa. Tudo impulsionado por mecanismos robotizados que, não apenas permitem uma circulação massiva de informações, mas em uma dinâmica cujo destino é premeditado por algoritmos. 


Essas motivações podem parecer alarmistas. Calma! Não é por aí que vou encaminhar essa conversa. Vou encaminhá-la para a direção contrária: a sensação de desconfiança na ciência é um sintoma de algo mais profundo e complexo, mas que se configura muito mais na aparência do que na realidade concreta. 


Mesmo sem perceber ou sem assumir, confiamos na ciência em alguma medida. Viver no século XXI demanda essa confiança. Querendo ou não, quando alguém decide ir ao médico ou quando entra em um avião, há confiança na ciência. Não dá para dizer que vivemos uma época em que ninguém mais acredita na ciência. 


Parece que o fenômeno social que presenciamos tem contornos mais específicos: ideias científicas questionadas são aquelas que mexem com crenças pessoais, interesses econômicos ou visões de mundo profundas. É o que vemos quando se pensa sobre mudanças climáticas, teoria da evolução ou vacinação. 


Se fizéssemos uma lista de conhecimentos científicos em que a sociedade confia versus os que não confia, a primeira lista seria consideravelmente maior. Me parece que o problema, então, não se resume em: não confiar. O desafio está em construirmos uma opinião pública que reconheça o papel social da ciência, mesmo considerando visões de mundo diferentes, limites e falhas. 


É claro que essa construção é coletiva, depende de diferentes pessoas e instituições. Trata-se de uma construção que se forma na base de cada uma  das esferas sociais em que circulamos: universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos, meios de comunicação, famílias, movimentos sociais e, de modo muito especial, as escolas. E é aí que eu te convido a pensar na escola.


50 livros gratuitos estão te esperando para serem baixados. Baixe aqui a 

coletânea exclusiva sobre ensino de ciências e biologia. Eles irão contribuir com seu processo formativo como professor. É gratuito!


Tente lembrar de suas aulas de ciências. Como os conhecimentos geralmente eram trabalhados? Havia algum tipo de reflexão crítica em torno deles? Claro que, salvo raras exceções, sabemos a resposta. Há algumas aprendizagens necessárias, entre erros e acertos. 


O trabalho intelectual pautado na ‘entrega’ de conhecimentos prontos, como ainda hoje predomina na escola, gera implicações sobre a confiança na ciência. É como se a escola buscasse, mesmo que implicitamente, forjar uma confiança cega. 


O estudante tem acesso ao “resultado final” do conhecimento, mas quase nunca enxerga o processo que tornou aquele conhecimento confiável. Isso pode dificultar a compreensão de por que uma explicação científica robusta não é a mesma coisa que uma opinião circulando nas redes sociais.

 

Quando a ciência aparece apenas como verdade acabada, sem contexto e sem história, fica mais difícil perceber o que a diferencia de discursos negacionistas ou pseudocientíficos. Acabamos construindo uma imagem distorcida do trabalho científico, como se a ciência fosse algo neutro e livre de conflitos.


Pensamento crítico e confiança na ciência


Cada vez mais, os currículos de ciências tentam aproximar os estudantes de práticas como investigar, levantar hipóteses, comunicar ideias, discutir resultados e avaliar evidências. Mesmo assim, quando entramos em temas marcados por desinformação, negacionismo ou disputas mais profundas sobre ‘em quem acreditar’, esses avanços ainda mostram seus limites.


Além disso, teremos que rever a nossa própria compreensão sobre os sistemas de crenças das pessoas. Há estudantes que compreendem a explicação científica de um tema e, ainda assim, continuam negando suas conclusões. 


Isso acontece porque a relação com a ciência não envolve só raciocínio lógico: ela também passa por valores, emoções, identidades, crenças e modos diferentes de entender o que conta como conhecimento confiável.


Não devemos reduzir esse tipo de reflexão a um tutorial sobre “como fazer com que os estudantes confiem na ciência”. Confiança não é algo que se “faz” que alguém tenha. É preciso adquiri-la, pouco a pouco, a partir daquilo que se conhece sobre algo.


Retomo as reflexões de Oreskes, com as quais iniciei esse texto. Em vez de defender a ciência cegamente, com base em uma suposta neutralidade, a confiabilidade da ciência está em seu caráter coletivo, crítico e público. 


O conhecimento científico se fortalece porque hipóteses, métodos e resultados são constantemente debatidos, criticados e revisados por suas respectivas comunidades de especialistas. 


Confiamos na ciência não porque ela esteja livre de erros, mas porque possui mecanismos sociais e institucionais que permitem produzir consensos e afirmações mais verossímeis ao longo do tempo.


Pensando na escola, meu convite é um olhar mais cuidadoso sobre algumas orientações que já existem. 


Um exemplo, é o desenvolvimento do pensamento crítico, muito falado nos currículos atuais, como um caminho para a confiança na ciência. Essa proposta é, a princípio, autoexplicativa. Se um estudante passa a pensar de forma mais crítica, inevitavelmente, deverá confiar mais em ciência. Será mesmo?  


Às vezes, a força de um jargão pedagógico pode nos arrastar por um caminho que não era o desejado. O pensamento crítico como um objetivo em si mesmo, como se todos pudessem avaliar sozinhos qualquer tema complexo, não ajuda. 


Fico aqui com a proposta dos professores Alexandre Junges e Tobias Espinosa, quando discutem a confiança equilibrada na ciência. Pensar criticamente significa não aceitar tudo de forma cega, mas também não duvidar de tudo o tempo todo. 


Pensar criticamente não demanda formar especialistas críticos sobre todos os temas da ciência, algo impossível. Em temas complexos, como mudanças climáticas, vacinas ou pandemias, nem sempre uma pessoa consegue avaliar sozinha as evidências científicas, porque esse conhecimento exige formação especializada. 


Significa formar estudantes capazes de circular com mais segurança em debates científicos que afetam suas vidas. Pessoas que consigam interpretar informações, reconhecer fontes confiáveis, perceber conflitos de interesse e entender que a ciência não funciona sozinha, mas em redes. 


Temos acompanhado algumas experiências exitosas em nosso grupo de pesquisa, Ethnos: Discurso e Cotidiano da sala de aula de Ciências


Nosso grupo está vinculado à Faculdade de Educação da UFMG e desenvolve pesquisas nas quais a sala de aula é o espaço de construção de dados e análises. É a partir do que acontece no dia a dia de aulas de ciências que buscamos entender alguns dos desafios que expus aqui e que temos pensado em alternativas. 


Uma pergunta que tem sido importante para nós é: “como ajudar os estudantes a decidir em quem confiar?” Em aulas que temos analisado, isso significa aprender a observar quem fala, de onde fala, qual é sua experiência no assunto, se existe consenso entre especialistas, quais interesses podem estar em jogo e como aquela informação foi produzida. 


As experiências pedagógicas com este enfoque estão engatinhando e temos muito o que aprender. 


Por isso, fica o convite a vocês para compartilhar o que têm percebido desses desafios, que práticas têm sido importantes e que mudanças percebem necessárias na cultura escolar para que uma confiança equilibrada na ciência se torne viável na formação de estudantes. Use o espaço de comentários para contribuir e começarmos um diálogo!  



Para saber mais


Para se informar mais sobre os assuntos discutidos aqui, convido vocês a lerem o seguinte artigo que aborda mais sobre nossa temática: Confiança na ciência, desinformação e ensino de ciências: para onde vamos?


O prof. Tobias Espinosa participa de um projeto interessante de divulgação científica, uma iniciativa do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Instituto de Matemática, Estatística e Física da Universidade Federal do Rio Grande, chamado Tendências. Veja mais sobre o link abaixo: 



Para você professor, deixo como material complementar um texto da Fiocruz sobre a percepção dos jovens brasileiros sobre a ciência e a tecnologia. Leia mais aqui: Pesquisa revela o que os jovens brasileiros pensam sobre ciência e tecnologia.



Quer conhecer mais dicas sobre educação e divulgação científica? Então não deixe de acessar nosso Instagram! E leia alguns de nossos textos: 




Escrito por: Luiz Gustavo Franco

Revisado por: Nicolas Nathan dos Santos e Julia Quintaneiro



Como citar este texto:


FRANCO, L. G. Confiança equilibrada na ciência: é possível ensiná-la na escola?. Potencial Biótico. Disponível em: <https://www.potencialbiotico.com/post/confiancanaciencia>. Acesso em:



Luiz Gustavo Franco


É professor da Faculdade de Educação da UFMG. É licenciado em Ciências Biológicas, com mestrado e doutorado em Educação pela UFMG e pós-doutorado na mesma área pela Universidade de Santiago de Compostela. Suas pesquisas recentes têm se voltado para o letramento midiático, desinformação e escola, e pensamento crítico.












Referências:


GOIS, E.; LIMA, N. W.; GUERRA, A. M. Não Tem Saída Fácil: Tensão Entre Autonomia Epistêmica e Confiança na Ciência Como Caminho Para a Educação em Ciências Contemporânea. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências[S. l.], p. e49070, 1–64, 2024. https://doi.org/10.28976/1984-2686rbpec2024u427490.


JUNGES, A. L.; ESPINOSA, T. Ensino de ciências e os desafios do século XXI: entre a crítica e a confiança na ciência. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v.37, n.3, p.1577–1597, 2020. https://doi.org/10.5007/2175-7941.2020v37n3p1577


KELLES, L. F., LIMA, N. W.; COUTINHO, F. A.; FRANCO, L. G. Confiança na ciência, desinformação e ensino de ciências: para onde vamos? (2025). SciELO Preprintshttps://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.13047


LIMA, N. W.; VAZATA, P. A. V.; OSTERMANN, F.; CAVALCANTI, C. J. D. H. Educação em ciências nos tempos de pós-verdade: reflexões metafísicas a partir dos estudos das ciências de Bruno Latour. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 19, 155–189, 2019. https://doi.org/10.28976/1984-2686rbpec2019u155189.


ORESKES, N. Why trust science? Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 2019.


3 comentários


O Grupo Ethnos ofereceu-nos, além da formação continuada, a oportunidade de levar práticas investigativas para a sala de aula. Nelas, o aluno compreende que o erro é parte integrante do processo de aprendizagem; ou seja, alcançar um resultado inesperado também é aprender. Precisamos de um ambiente no qual a dúvida seja celebrada como o ponto de partida do saber, compreendendo que o 'ainda não saber' é um elemento do rigor científico."

Curtir

Paloma Dune
Paloma Dune
há 10 horas

Essa é uma reflexão essencial para os professores de ciências! Obrigada pelo texto.

Curtir

Muito pertinente essa temática!

Curtir
bottom of page