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Quais são os remédios feitos com veneno de cobra?

Atualizado: 18 de set. de 2022

Você é daquelas pessoas que morre de medo de cobras por conta do veneno delas? Talvez você já saiba que os venenos de serpentes são bastante estudados, devido aos quadros de envenenamento que promovem através da picada. Mas, você sabia que existem medicamentos feitos com moléculas do veneno de cobra? Os venenos constituem uma rica fonte de moléculas bioativas com grande potencial farmacológico. Confira neste texto quais são os remédios feitos com veneno de cobra.

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O que é o veneno de cobra?

Os venenos de serpentes são misturas complexas, bastante especializadas, que são secretadas e armazenadas em glândulas específicas.

As peçonhas (substâncias que podem ser injetadas a partir de um aparelho inoculador), possuem função direta na alimentação desses animais, sendo utilizada para a imobilização da presa, para auxiliar na lubrificação, deglutição e digestão, bem como na desinfecção e neutralização microbiana, além de ser uma importante estratégia de defesa das cobras contra possíveis predadores.

Após utilizar o veneno para a captura da presa que servirá de alimento, as cobras levarão cerca de 20 dias para produzi-lo novamente. A quantidade de veneno produzida depende do tamanho da cobra e do tipo de glândula que esta apresenta.

Ao injetar a peçonha no corpo da presa, através da picada, as toxinas ali presentes podem causar intensas mudanças fisiológicas, dor e até mesmo a morte.

A composição e as propriedades bioquímicas e farmacológicas dos venenos de cobra podem sofrer variações de acordo com a espécie e entre os próprios indivíduos. Fatores como alimentação, sazonalidade, idade, sexo e o habitat estão diretamente relacionados com essas alterações.


A Composição do veneno

Os venenos das cobras são constituídos em grande parte por proteínas, que correspondem a 90% do peso seco do veneno. As proteínas das peçonhas de serpentes são responsáveis pela maioria dos efeitos conhecidos no envenenamento, contudo, tanto as frações proteicas quanto as não proteicas, são biologicamente importantes.

Os elementos proteicos correspondem a enzimas e proteínas não enzimáticas, além de polipeptídios. Os elementos não proteicos podem ser divididos em orgânicos e inorgânicos.

Os venenos ofídicos são constituídos por um vasto conjunto de componentes orgânicos, que correspondem a aminoácidos livres e peptídeos (que ganham destaque por serem biologicamente ativos), nucleotídeos, carboidratos, lipídeos e aminas biogênicas; e componentes inorgânicos, como íons de Cálcio, Cobre, Ferro, Potássio, entre outros.

Essas substâncias podem atuar de forma independente ou concomitantemente, aumentando de forma significativa os efeitos causados pelo envenenamento.

O estudo da composição dos venenos colabora com o contínuo avanço biotecnológico, com o desenvolvimento de fármacos e na compreensão dos processos bioquímicos e fisiopatológicos dos organismos.

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Aplicações dos venenos de serpentes

Pode parecer um pouco estranho, mas os venenos podem sim ser utilizados na medicina e farmacologia. O uso medicinal de peçonhas de serpentes como “remédios naturais” populares é bem documentado na medicina tradicional oriental, porém o veneno bruto do animal não é próprio para o uso terapêutico, uma vez que a ação conjunta das toxinas pode exercer intoxicação e afetar o sistema fisiológico do indivíduo.


Uma das principais aplicações dos venenos de serpentes se dá na produção do soro antiofídico, utilizado no tratamento de acidentes por picadas de serpentes. Os soros são feitos a partir de venenos extraídos de espécies de cobras venenosas consideradas de interesse médico, que são as principais responsáveis por acidentes ofídicos com humanos.


Assista a esse vídeo demonstrando o processo de extração de veneno de cobra:



Além do soro, alguns agentes terapêuticos derivados de venenos de cobras circulam há algum tempo no mercado e atuam de forma eficiente no sistema circulatório e na coagulação sanguínea.


Estudos de citotoxicidade de toxinas do veneno da cascavel (Crotalus durissus terrificus) têm fornecido dados promissores para uma futura utilização do veneno no tratamento de câncer. Como por exemplo o VRCTC-310-ONCO, resultante da combinação de duas toxinas do viperídeo, que vem sendo avaliada como um potente agente antitumoral.


Diversas pesquisas vêm explorando o potencial farmacológico de peçonhas de diferentes espécies de serpentes na busca por biomoléculas que possam ser utilizadas como fonte para o desenvolvimento de novos medicamentos analgésicos, antiinflamatórios, antivirais e antibióticos.


A busca por novos antibióticos é uma das grandes apostas na caracterização de venenos de serpentes, devido ao crescente número de patógenos que desenvolvem mecanismos de resistência aos medicamentos disponíveis no mercado e a infecções causadas por microrganismos reemergentes.


Essas atividades terapêuticas apresentadas pelo veneno de cobra se devem a necessidade do animal em desenvolver um mecanismo imunológico contra microrganismos presentes nas presas e para sobreviver às adversidades ambientais.


Apesar dos esforços consideráveis dos pesquisadores e da constatação de sua relevância ao longo da história, a maioria das toxinas desses venenos ainda não foram caracterizadas e apenas alguns componentes do veneno de cobra são usados atualmente como terapêutica.

Quais são os remédios feitos com venenos de serpentes?

Capoten® (Captopril)

O Capoten® é o nome comercial dado ao grande precursor dos remédios feitos a partir de venenos de cobras, o captopril. Ele foi desenvolvido através do isolamento de dois peptídeos presentes na peçonha de jararaca (Bothrops jararaca). O captopril é um remédio utilizado mundialmente no tratamento de hipertensão arterial humana e, também, de insuficiência cardíaca, pois é um vasodilatador. Você conhece alguém que utiliza o captopril?

Integrilin® (Eptifibatide)

O Integrilin®, cujo princípio ativo é o Eptifibatide obtido do veneno da cascavel Pigmeu (Sistrurus miliarus barbouri), impede a agregação de plaquetas sanguíneas, inibindo a coagulação sanguínea em pacientes que apresentam problemas de obstrução de artérias.

Aggrastat® (Tirofibana)

O Aggrastat® é comercializado pela Merck & Co., uma famosa empresa farmacêutica. Esse medicamento é utilizado para prevenir a formação de coágulos do sangue, que podem acarretar sérios problemas no fluxo sanguíneo, além de ataques cardíacos. Essa droga foi desenvolvida a partir da peçonha da serpente Echis carinatus, que habita a região do Oriente Médio e Ásia Central.

Defibrase® (Batroxobina)

A Batroxobina, ou Reptilase, é uma serino-protease (enzima que cliva proteínas). Essa enzima é semelhante à trombina, e foi purificada do veneno de Bothrops moojeni, conhecida popularmente como caiçaca ou jararacão. É um medicamento anticoagulante, utilizado no tratamento de disfunções circulatórias.

Plateltex®

O Plateltex® é um grande revolucionário na engenharia de tecidos e terapia celular. Ele é basicamente um gel rico em plaquetas que ajuda na cicatrização. As plaquetas presentes no gel retêm fatores de crescimento tecidual no local da lesão, o que colabora com o processo de cicatrização.

Esse remédio também tem a Batroxobina, isolada da peçonha de B. moojeni em sua composição.

Vivostat®

O Sistema Vivostat® fibrina consiste em uma espécie de cola que ajuda na cicatrização de feridas e na manutenção da homeostase (condição de estabilidade do organismo). É utilizada no tratamento em terapias regenerativas e em cirurgias hepáticas, cardíacas, neurológicas, entre outras.

Sua formulação também conta com a serino-protease Batroxobina, que é necessária para iniciar o processo de coagulação, ativando o fibrinogênio (fator de coagulação) do paciente.


Viu só como os venenos de cobras são importantes? Ao contrário do que muitos pensam, as serpentes não querem gastar seu veneno picando o ser humano, pois elas precisam dele para outras coisas, e como vimos, nós também precisamos dele. Por isso é muito importante preservar e respeitar esses animais, afinal eles contribuem para a manutenção da nossa saúde e para o avanço das Ciências Médicas.


Quer saber mais sobre as cobras? Acesse o texto Quais são as cobras mais perigosas do mundo?


Confira também alguns posts relacionados a esse tema no nosso Instagram.


Escrito por: Juliana Cuoco Badari (@jujubadari)

Revisado por: Mateus Bispo (@mateuwsss)


Como citar este texto:


BADARI, J. C.; BISPO, M. R. B. Quais são os remédios feitos com veneno de cobra?. Potencial Biótico. Disponível em: <https://www.potencialbiotico.com/post/venenodecobra>. Acesso em:


Referências:


BADARI, J.C.; DÍAZ-ROA, A.; ROCHA, M.M.T,; MENDONÇA, R.Z.; SILVA JUNIOR, P.I. Patagonin-CRISP: Antimicrobial activity and source of antimicrobial molecules in Duvernoy’s gland secretion (Philodryas patagoniensis snake). Frontiers in Pharmacology, v. 11, p. 2374, 2021.


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INSTITUTO BUTANTAN. Como é produzido o soro contra o veneno das cobras? Disponível em: <https://butantan.gov.br/noticias/como-e-produzido-o-soro-contra-o-veneno-das-cobras>. Acesso em: 6 jul. 2021.


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